A rebeldia hoje é ser de direita

14 02 2021

Por Paulo Polzonoff Jr


Entrevistei Roger Moreira. Sim, o do Ultraje. Sempre quis conservar com ele. Mas, para efeitos editoriais, direi aqui que o entrevistei só porque Roger é uma personalidade controversa da Internet, conhecido por seus comentários cáusticos antiesquerda – o que é visto como uma heresia por muitos.

Roger: O ser humano não quer ser igual. Pelo contrário, quer ser diferente
Foto: Érica/ Ultraje.com

Para mim, Roger Moreira sempre será o líder daquela que considero a melhor banda de rock dos anos 1980 – sim, melhor do que Legião, Paralamas, Titãs. Tendo o privilégio de vislumbrar esse passado sem o filtro da nostalgia, mas com o filtro da experiência, vejo nas composições de Roger todas as qualidades necessárias nas músicas daquela época: refrãos absurdamente grudentos, simplicidade, uma boa dose da raiva típica do rock, humor para dar e vender. (Repare em toda a minha ginástica para não usar a palavra “irreverência”). Se “Inútil” não merece ser chamada de obra-prima, então não sei o que merece.

Na entrevista abaixo, contudo, falamos pouco de música. Mas teve Covid. Teve QI alto. E teve política, claro. Até especulamos se ídolos do rock como Jim Morrison, Renato Russo e Freddie Mercury estariam fazendo campanha #LulaLivre. Hoje um senhor de 64 anos, Roger não fugiu das perguntas, que respondeu com ponderação e bom humor. Até mesmo quando eu, inconvenientemente, cometi a ousadia de lhe perguntar quanto é 7 x 8.

Sei que você vai amar, sei que você vai odiar. Principalmente, sei que você não vai ficar indiferente às palavras de Roger Moreira.

Convém informar ao leitor que esta entrevista está sendo feita por e-mail. Só por ser mais conveniente tanto para você quanto para mim. Mas, cá entre nós, entrevista por e-mail também é bom porque impede o jornalista de “desvirtuar o sentido” ou “tirar do contexto” algo que o entrevistado falou, né? Você não confia na imprensa?

Eu confio em você e não acho que você faria isso. Mas muitos outros o fazem. Folha, Veja, Estadão e que tais. É mais a regra do que a exceção. Normalmente o cara vem com a pauta pronta e te entrevista só para ver se você confirma a tese dele. Falar nisso, assisti à entrevista de Woody Allen com o Bial e foi muito ruim. Ele perdeu uma ótima chance de fazer uma entrevista boa com um comediante brilhante para fazer perguntas pedantes que diziam mais sobre Bial do que sobre Allen.

Apesar de você ser uma boa memória da minha infância, não sei muita coisa sobre a sua vida pessoal. Só o básico que todo mundo sabe. E não quero pesquisar para não me “deixar contaminar pelo personagem” (mas vão dizer que é preguiça). Então conta alguma coisa legal da sua vida para a gente, por favor.

Bom, eu acho que não tem nada assim de super especial sobre minha vida que eu já não tenha contado. Nasci em São Paulo e meu pai é de Jacareí. De forma que eu ia muito pra lá, subia em árvores, andava a cavalo, tirava leite de vaca, enfim, tenho intimidade com esse meio. Também ia muito, nas férias, para Santos. Gosto de Santos e de praia. Vivi um ano e meio em San Francisco, na Califórnia, o que influenciou mais ainda a minha admiração pelos EUA. Hoje San Francisco está, como sói acontecer, bastante degradada devido a administrações esquerdistas. Mas era um lugar maravilhoso em termos de civilização e cidadania. Considero-me super bem-sucedido já que sempre desejei viver de música e é o que tenho feito desde mais ou menos 1984. Vivo bem, sou casado e tenho duas filhas pequenas.

Toda entrevista tem aquele momento capcioso, em que o entrevistador tenta deixar o entrevistado desconfortável falando de algum desafeto. Então sinta-se à vontade. Quer falar de algum desafeto? O Scandurra, talvez? Ou de algum outro. Se não tiver nenhum desafeto, a gente pode até criar um. Que tal?

Eu não tenho desafetos pessoais. Só coisa de ideologia. Aliás um traço de minha personalidade que meus amigos já aprenderam a reconhecer, mas que causa estranheza em quem me conhece há pouco tempo, é que sou capaz de brigar por um assunto e estar completamente tranquilo sobre o resto. Eu separo as coisas. Tipo, fico puto com uma atitude ou ato específico, mas, acabando aquela discussão, de resto estou de boa com a pessoa. Aprendi muito com o Edgard, mais observando-o do que realmente tomando lições com ele. Ele foi realmente um incentivador no começo, mas nós também lhe demos um emprego remunerado quando o Ira era apenas um projeto. Também não foi ele quem escolheu o nome da banda, como vive dizendo por aí. O Leôspa e eu levamos meses para chegar num consenso. Quando chegamos a Ultraje e eu perguntei ao Scandurra o que ele achava de Ultraje, ele, que não sabia do que conversávamos, disse “Ultraje? Que Ultraje? Ultraje a rigor?” E daí Leôspa e eu concordamos que era um nome legal. Não é como se ele chegasse do nada e dissesse “Ei, que tal vocês chamarem a banda de Ultraje a Rigor?”. Em outras ocasiões (diversas) ele mostrou preconceito contra a gente ou até mesmo falou mal da gente, alegando, algumas vezes, que estava bêbado ou drogado. Mas ninguém fala bobagem ou faz o que não faria porque estava bêbado. De forma que ele começou a se achar importante demais e também a fazer críticas sobre minha ideologia de forma pejorativa. Faltou-lhe caráter e personalidade. Isso costuma ser definitivo pra mim. Não estou bravo com ele, estou decepcionado. Tenho amigos que pensam diferente de mim ideologicamente, mas que eu respeito. Eu normalmente só agrido àqueles que me agridem. E gosto de debater. Mas pouca gente respeita as regras do debate, especialmente os esquerdistas.

Aproveitando o embalo, diz uma frase polêmica aí para eu usar como título, por favor.

Ah, não é meu lance. Muita gente (meus desafetos, mas do lado deles) diz que é isso que eu faço na Internet, mas não é. Tudo que eu digo é porque eu acredito. Gosto de implicar, provocar, mas principalmente de fazer rir ou de indicar caminhos que levem ao progresso. Eu inclusive desconfio desses desafetos de Internet já que não os encontro na rua, quando saio. Pelo contrário, ninguém vem me xingar de perto. Só elogios, graças a Deus. E graças à minha honestidade de sempre. As ofensas são muito pouco imaginativas e sempre se repetem. Fiz até uma cartela de bingo com elas. “QI falso, banda decadente, banda de programa, ex-roqueiro, bolsominion”. Basicamente se resume a isso.

Outro dia estava escurando os discos do Ultraje e pensando nas suas postagens do Twitter. Uma coisa levou a outra e, quando percebi, estava imaginando como seriam Cazuza, Renato Russo, Freddie Mercury e até o Jim Morrison no Twitter ou falando de política no Fantástico. Como você imagina que seriam? Seriam militantes chatos? Estariam fazendo campanha #LulaLivre?

Difícil saber. Jim Morrison era esquerdista, claro, mas era jovem, e ser rebelde nos anos 1960 era aquilo. Hoje estaria com quase 80 anos e é capaz que fosse mais ajuizado. A maioria do pessoal da minha geração hoje em dia é de direita. Cazuza, quem sabe, talvez embarcasse na onda de LGBTQI, não sei. Ney Matogrosso, por exemplo não é um clichê de opinião maria-vai-com-as-outras e acho que Cazuza talvez não fosse também. O que muita gente de esquerda não percebe é que eles acham que estão se rebelando, mas a rebeldia hoje é ser de direita. É quebrar a espiral do silêncio construída durante anos pela esquerda. É jogar na cara desses reacionários que vivem um eterno 68 que o mundo mudou. A mesma coisa Renato Russo. Ele era muito letrado e inteligente para cair nessa esparrela. Freddie Mercury? Baladeiro. Não me lembro de atitudes políticas dele. Um gozador hedonista. E não falo isso como uma desqualificação.

Ainda pensando nas músicas do Ultraje, uma pergunta filosófica meio desesperada, do tipo que eu faria com a voz meio fina, jogando os braços para o alto, a calva arrepiada até: o que aconteceu com o humor do brasileiro, Roger?! Por que ninguém mais ri de nada?! Ou é só uma impressão minha?

Medo. Castração do politicamente correto. E a esquerda é daltônica de humor, não é capaz de entendê-lo. Veja as charges e piadas da esquerda. Não são realmente engraçadas, são simplesmente ataques para fazer bonito para sua turminha. Aliás, ô povinho que precisa de turminha. Parecem não ter convicção do que pregam, tanto que quase nunca defendem sua causa, preferem atacar o mensageiro ou a causa contrária. É realmente difícil defender o socialismo, ideologia que deveria ser tão malvista quanto o nazismo e que matou muito mais gente. Além de nunca ter dado certo em lugar nenhum. Ah, é “porque nunca foi testada de verdade”… É idiota. Não somos formigas ou abelhas. O ser humano não quer ser igual. Pelo contrário, quer ser diferente (por mais que sejamos tão parecidos). Todos queremos ter coisas. Só quem quer ser sustentado pelo Estado é gente fracassada e ressentida. E não estou falando de gente pobre, miserável, sem educação ou oportunidades. Essa gente ficaria satisfeita de poder trabalhar, ganhar bem e se sustentar. Estou falando de gente que ou tem interesse no poder ou prefere ver gente melhor de vida igualada por baixo, por pura inveja, do que pensar que poderia ser alguém melhor na vida.

Toda entrevista também tem que ter uma pergunta nada-a-ver no meio. Pensei em perguntar se você já teve Covid-19 e como foi. Mas tenho uma pergunta melhor: por acaso você está com fome ao responder a esta entrevista?

Agora que vc falou, pintou uma fominha… 🙂 Mas não tive Covid, estou tomando todos os cuidados necessários. Você não perguntou, mas vou comentar também. A Covid existe. É uma doença que pode ser grave, pode ser leve, pode ter sequelas horríveis e pode ser assintomática. Acho um absurdo que haja discussão sobre usar máscara ou não. Japoneses usam máscaras quando estão resfriados! Pelos outros! Nós somos tão parvos e egoístas que discutimos se devemos usar máscaras ou não, se elas funcionam, se elas fazem você respirar mais gás carbônico, etc. Nossos cérebros têm um mecanismo, ignorado por quase todo mundo, que nos faz escolher argumentos que defendam nossas teses. E tem também aquela velha desculpa de dizer que é pelos outros, que estão pensando no geral (mas não querem usar máscaras). Pode reparar: quando vão entrevistar alguém na rua reclamando de barulho, tem sempre “alguém idoso e doente” ou “criança pequena” que não pode com o barulho.

Quanto ao lockdown, era um mecanismo para permitir que os hospitais dessem conta de lidar com a ocupação dos leitos. Nem todo mundo pode se dar ao luxo de ficar em casa e pronto, mas os empregadores poderiam obrigar seus empregados a trabalhar? Se não pudessem, os empregados não poderiam decidir não ir e exigir salários? São muitas questões juntas. Mas nós vivemos uma “Era de Opinião”. Todo mundo tem que ter a sua, mesmo que não saiba nada sobre o assunto. Cansativo.

A gente sabe que, politicamente, você não tem afinidade nenhuma com o Panteão da MPB. Mas, no espírito de tentar encontrar sempre algo de bom nas pessoas de que desgostamos (e na obra delas), queria que você me dissesse quais suas músicas preferidas de Chico e Caetano. Ou vai dizer que não gosta de nenhuma? Nem de “Beatriz”?!

Tenho muitas de que gosto. Já disse muitas vezes que fui influenciado (como letrista) por vários deles e musicalmente por Jorge Ben(jor). Como eu já disse, separo as coisas. Admiro o trabalho de muitos medalhões da MPB, embora nunca tenha sido realmente minha praia. Quando eu tinha dinheiro para comprar um disco, dava preferência a algum disco importado. E consigo ver truques de marketing no comportamento, especialmente de um desses panteôes…

Conta alguma coisa dos bastidores do “The Noite” com o Gregório Duvivier. Tenho certeza de que deve haver uma boa história aí. Nunca te pedi nada…

Na verdade, esse é outro de quem discordo ideologicamente, mas acho engraçado (às vezes) no Porta dos Fundos. Fizemos um esquete juntos no “The Noite” quando essas diferenças ainda não eram tão gritantes. Era tirando sarro da direita fingindo que tiravam sarro da esquerda. Claro, não somos exatamente amigos, mas não época eu ainda não desprezava a postura dele.

Não posso terminar essa entrevista sem fazer uma pergunta sobre o seu famoso QI – só um pouquinho inferior ao meu. Mas, sério, você “acredita” em QI? Há quem diga que essa tentativa de medir a inteligência das pessoas e conferir a ela um número tem bases eugenistas. Mas a pergunta é: quanto é 7 x 8?

  1. Claro que acredito. Eu vivo com ele. Não é um superpoder, como muitos pensam que seja, mas tem suas características, para o bem e para o mal. O teste mostra que você tem um QI alto e eu fiz vários deles em várias épocas de minha vida, sempre com resultados parecidos. Ser inteligente é o que você fará com esse QI. O QI alto permite que eu pense de forma mais lógica e que dê saltos nas conclusões. Por exemplo, posso chegar de A a F sem ter que passar pelo B,C, D e E. Talvez até por isso às vezes me dizem que sou uma espécie de Spock ou Sheldon, um cara meio frio, muito direto. Mas tenho, sim, emoções. As pessoas (que não sabem do que se trata e confundem as coisas) pensam muitas coisas erradas a respeito disso. Primeiro, que eu fico me gabando disso. Não. Cerca de um ano depois de entrar para a Mensa (que é uma associação de pessoas com QI alto e que, muitas vezes, têm problemas de relacionamento por causa disso), a Mensa divulgou que eu fazia parte da associação. Por causa disso, dei muitas entrevistas a respeito. Mas as pessoas acham que eu tenho que acertar em tudo, que eu deveria me dedicar à ciência, que eu deveria usar minha inteligência para ajudar o mundo, que eu deveria saber tudo e ser infalível. Tem muita inveja. É uma coisa esquisita porque, se dizem que você é muito forte, você pode provar levantando um carro, sei lá. Se é muito alto, é visível. Dizer que se tem um QI alto é como dizer que você tem, digamos, muita simetria no rosto. Você pode ter, mas não quer dizer que seja indubitavelmente lindo. E com QI é pior. Todo mundo pensa “ah, que nada, eu também sou inteligente” e tenta “desafiar o gatilho mais rápido do oeste”. Existe até um efeito, chamado Dunning-Kruger, que explica isso. Um outro texto, esse sobre inteligência, também explica um pouco sobre as diferenças entre os diversos tipos de inteligência
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